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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O Caminho da Morte - Final

-Ahhhhhhhh!

A menina grita sem se mexer, diante de tamanha perplexidade que seus olhos esbugalharam. A Morte cortava seu peito em carne viva para nunca esquecer o que foi ensinado.

-Continuemos... De agora em diante seja rápida, costuma vazar muito sangue. Golpeie o tórax pra que se quebrem as costelas e, como se fosse guardar algo em um porta-jóias, coloque o coração. Vejam só como é fantástico! Agora é só fechar e pronto.

O clima que se instalou no lugar foi sufocante. A menina, jogada ao chão, tremendo de uma dor asfixiante, e o ser que dela o coração roubara desejava que isso nunca tivera acontecido, pois foram condenados a eternamente trocarem de coração, num ritual que até mesmo a dor seria um alivio. Como ele poderia cortar o peito da sua amada assim?

Mas se assim a Morte determinara, assim seria feito. E com um sorriso de trabalho feito, a Morte segue seu caminho e diz:

- Tentei compreendê-los, mas não foi possível. Enfim, resolvi retornar pra minha verdadeira face, e vocês terão que seguir eternamente nessa trama de arrancar o coração e colocá-lo novamente, noite por noite e amanhecer por amanhecer. Mwuhahaha... Como será intrigante assistir vocês se apunhalarem de novo, de novo e de novo.

E assim aconteceu.


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domingo, 26 de dezembro de 2010

O Caminho da Morte - pt. 7

Como a Morte tinha aquele proceder? Ensinava calma e serena como arrancar um coração e colocá-lo em outro lugar. Eis que a Morte tira da sua manga uma velha faca enferrujada, mais afiada que própria língua. 

Aproxima-se da menina, a segura e com a faca em punho, desliza a lâmina por seu peito e diz em aula prática:

_Você já cortou a pele de alguém? É como um desenho, use a ponta como um grafite... Antes de fazer o esboço do desenho, eu imagino o corte em linhas sobre a pele. Daí, me arrisco em desenhar: começa em linhas negras que vão se avermelhando, borrando a tela... Como em um desenho, você deve ter leveza nas mãos e não fazer linhas fortes, pois o mais admirável em um corte é quando se corta fininho e só a primeira camada da pele. Sempre me lembra um tecido rasgando...
Vejam só: já se vê aquela camada branca com alguns vasinhos quase minúsculos de sangue desmanchando, que  se espalham pela camada branca, agora toda vermelha! Pronto, de desenho vamos logo pra escultura. Segure firme a faca como se fosse picar a pedra num só golpe...


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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O Caminho da Morte - pt. 6

"_Ora, eu decido então: um eterno castigo, pouco me importo pois já é finda a minha compaixão. Colocarei vocês separados dia e noite... Você, moça descompromissada, durante o dia vigia a Estrada e pela noite vaga sem rumo. A noite será a vez do outro que primeiro roubou o coração, vigiando por ela adentro...
Mas não é somente esse meu castigo, não será tão simples proceder. Aqueles que a minha função usurparam verão a piedade crua da Morte, pois ao se encontrarem ao amanhecer e anoitecer em meu Caminho, o coração terão de ao outro entregar, é fato! Vão dividí-lo e somente nestes raros momentos se encontrarão.
Àqueles que estiverem em meu Caminho, o castigo chega, é claro.



Venha, menina, caminhe... Venha para que lhe ensine a detalhada arte de tirar um coração, não será da mesma maneira qu'ele te roubou... Não será uma simples alma roubada, afinal a alma de vocês é minha... "


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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O Caminho da Morte - pt. 5

As suas lembranças a moça retoma então, quase compulsória. Derrama lágrimas por ter achado o tal alguém que roubou seu coração. Só que as lágrimas não são por encontrá-lo em si, mas sim por saber que de amor ele também sofria e todos os dias ia até a estrada aonde a deixara até por fim de achá-la...


O moço, envergonhado, tentava se explicar:

_Por ganância roubei seu coração, mas me descubri ou inocente ou burro por tal ação. Não era ele o que cobiçava, aquele bem precioso tão desejado. Somente ao sentir teu coração pulsar percebi que o que eu realmente queria havia deixado partir... Tão tolo que fui!
Eis que então surge a Morte e me toma o que ainda restava de ti. Acabei por sentar e esperar o dia que você retornaria, enlouquecendo pouco a pouco...

A Morte, desejando uma solução, resolveu da maneira mais simples para ela. Entretanto não havia forma mais cruel e torturante pra o dilema... Eis que a voz meiga e trovoante da Morte corta o silêncio que pairava...

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segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O Caminho da Morte - pt. 4

Sua presença em forma de um silêncio que se espalhava sorrateiro com o vento. Um vento gélido e angustiante que ao tocar em nas faces fazia sentir que a vida terminaria ali. Eis que então a Morte caminha em direção aos dois ali parados sem saberem quem são, nem mesmo porque se amavam.

Mas esse sofrimento logo tivera um fim, pois a Morte foi aquela que de toda trama sabia, mediadora da verdade e pronunciou as seguintes frases:

_Vejam só quem encontro em fim: aqueles que criaram tamanha confusão pra mim! Mais lhes digo, vim trazer a justiça definitiva, agora já não há outra alternativa... Já que você, moça não cumpriu o que lhe foi ordenado, pegar de volta seu coração e trazê-lo para mim, fazendo justiça em meu lugar, a tua história vou revelar...
Certo dia, passava eu por este caminho e vi um ser tão solitário e triste. É o costume eu perguntar a quem neste caminho vier lamentar, assim o fiz. Ele me contou que há muito sofria um eterno arrependimento, pois roubou de uma doce moça o seu coração, e ao colocá-lo em seu próprio peito, sentiu todo o amor lá dentro. E esse amor, que tal moça sentia, o fez sofrer de saudade, tanto querer sem poder encontrar...
Eis então moça, que peguei o coração pra mim, ele é meu por justo direito, se lembra? Me prometeste recuperá-lo e em minhas mãos colocar. Ao ser do qual tirei o coração, disse para não se desesperar, pois a verdadeira dona um dia iria encontrar.


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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O Caminho da Morte - pt.3

O ser em fim esboça uma expressão de meiguice. Olha a menina fixamente e candidamente murmura:

-Sempre soube que você viria. Mas como nunca pude prever quando a veria, fiz-me recluso todos os dias. E enfim só me restou sentar e esperar. Quando a vi não sabia se era você, por tanto imaginar... Se a caso você viesse não saberia distinguir a verdade a me enganar. Então me diga de uma vez: a Morte prega peças ou veio me levar de vez?

A menina se espanta e se intriga. O que tal ser perguntara? Pois de nada ela lembrava, apesar de tal familiaridade. Assim só restou-lhe explicar o porquê dela estar ali, se só o agora a incitava.

-Não sei se lhe é fiel confundir-me com alguém, pois nem a mim é lícito definir quem eu sou. Se a morte prega peças? Talvez, isso não me é estranho de todo... Mais se isso te ajuda, estou aqui por algo sim. De você nada eu sei, mais muito rondei sorrateira pela mata e sempre a ti e a esse lugar sou traga. Memória alguma possuo e por isso não me lembro se temos realmente algum destino em comum, não sei explicar. Vou dizer então o que posso... Por varias noites te olhei, e sem coragem apenas contemplei. De você nada eu posso falar, mas sempre vou me lembrar dos lindos e altos suspiros a te mirar, da mais bela canção que seu rosto transmite, em linhas suaves e profundas a circular... Me recordarei de tudo que seu parecer me incite, de cada sombra no rosto à tua espera, de cada ponta amarela que a sua pupila estampara...

Pois é aí que então a Morte aparece, e todos ali presentes tiveram a sensação que por ali ela já pairava e só esperava a hora certa para aparecer.




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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O Caminho da Morte - pt. 2

Então, a pobre menina agora escrava da morte e desertora de si, segue seu caminho. Anda por toda noite e embora dissoluta pela manhã, amanhece em si. Bem quisera todo bom feitor que tivesse sido apenas por uma noite,  mas o tempo e espaço se tornaram muito relativos para quem a vida não determina um fim. E no caso da jovem, apenas vagar interminantemente... Por dias, quem sabe anos, nem mesmo ela sabia ao certo, pois sua memória havia se perdido há muito tempo.

Enfim quando já nada restava de sua morte e em nada lembrava de sua promessa, a esquecida garota exilada o observa. Resolve o melancólico ser desvendar...

Todos os dias a jovem olhava aquela forma desconfortante subir o caminho e sentar-se na beira da estrada, de forma tão nostálgica. Ela se sentia presa ao lugar, mas só não se lembrava porque. Tal criatura se sentava, fixava o olhar e nada fazia. A menina chegou a achar que não respirava, pois nem os músculos do peito com o coração se compassavam.

Por fim, ela se desembrenha do mato e por alguns dias apenas se senta ao seu lado, sem nada falar. Nem mesmo se olharem. Mais teve um dia que fez mudar todos os outros.


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sábado, 23 de outubro de 2010

O Caminho da Morte - pt. 1

Certo dia, quando a Morte passava pelo caminho encontrou uma menina. E até mesmo a Morte sentiu pena da pobre menina desolada, com a face desnorteada e as mãos trêmidas, gélidas em seu peito, batendo enraivecido. O que pode ter ocorrido com a pobre menina baratinada?

Então a Morte caminha lentamente, movida pela sua piedade feminina, quase maternal. Realmente a menina estava dantescamente infernal para penalizar até a Morte.

-Menina, diz-me o que de tão repugnante te aconteceu? Que enfermidade, peste ou fratricida tanto mal te causou?

-Até eu mesma não sei ao certo. Há muito já não distingo realidade do mundo paralelo em que vivo. Apenas sei que me falta tudo, apesar de ter ainda o ar para respirar...

-Mas o que tão vital te falta que te deixastes tão desolada?

-Dei de bom grado meu coração, meu júbilo, o mais puro, e por fim foi arrancado do meu peito pelo mais inesperado, que fora malevolente, meu amor.

-Moça, moça, moça. Não tente enganar a Morte. Muitos tentam, mas sou sempre esperada. Como pode uma menina viver sem coração?

-Como poderia existir tal proeza de dividir meu coração com alguém?

-Bem, se é verdade que no seu peito nada bate, terei eu que colocar razão nas coisas e levá-la comigo. Não posso deixar vivo aquele que em seu peito não há sangue vivo.

-Certamente, senhora Morte, mas seu papel já foi cumprido, meu amor usurpou seu ofício e fizera de mim pobre menina morta sem coração!

-Pobre menina desgraçada pelo seu altruísmo! Confesso que iria findar seu sofrimento, realmente você está na minha lista. Mas se é mesmo verdade que não tem coração, não sofres realmente, nem vive para eu ser tua carrasco. Serei piedosa para com tamanha aberração: no vazio do seu peito colocarei uma parte da minha essência, e você será parte de mim. Eu transformarei a falta do seu coração em Impressibilidade,
você será impressentida mas sempre esperada. Será minha vingança contra o infame ser que ousou desfrutar do meu singular papel, trazer a morte e tirar a vida. Vai pobre menina, tenha como missão reaver seu coração e o coloque em minhas mãos, se me encontrares em alma piedosa novamente, o colocarei em seu peito e livre estará... Mas se acaso falhares, levarei o que resta de sua alma efêmera e colocarei fim em toda essa insanidade.

Assim partiu a pobre garota, carregando consigo a Maldição.


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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Caminho da Morte - prefácio

Vou tirar da Estante um conto que minha grande amiga Lay escreveu. Digamos que sou a "editora" dela... rsrsrs

Bom, O Caminho da Morte é um texto um pouco mórbido, como o próprio título já diz. Ele foi finalizado bem recentemente e está sendo publicado simultaneamente no meu outro blog, Jujuba OneeSama, além do Fique à Vontade, da Lay...
O nome inicial seria "Impressibilidade", uma das características marcantes da protagonista e da antagonista, mas tanto eu quanto ela achamos por bem mudar. É uma das primeiras prosas que a Lay escreve, ela gosta mesmo é de poesias... Com o tempo, publico mais alguns textos dela. Vou deixar cada um construir sua própria crítica, afinal esse é uma das minhas "crias"... rsrsrsrs

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O Caminho da Morte
Prefácio
  
A Morte é insípida, inodora e incolor.
Ou seria a água?
Bem, a Morte pode ser tudo isso para quem nunca sentiu seu cheiro ou a viu.
Para quem jamais a sentiu.
Mas a pobre garota, que se fez presa apaixonada da sempre esperada Morte,
Sim, aquela garota a conhece como é conhecida por ela.
E no fim, sabe que morre com ela e mata pra tê-la.
Layane Yasmin